
A saúde emocional tem estado, cada vez mais, no debate social, uma vez que há um número crescente de casos de ansiedade, stress, depressão e transtornos. Por isso, é fundamental tomar medidas preventivas para cuidar da saúde emocional.
As perturbações mentais, ou doenças emocionais (perturbações de ansiedade e depressivas são as mais prevalentes, no mundo e em Portugal), representam um grande desafio para a saúde pública mundial, não só pelo número crescente de casos como também pelo impacto na qualidade de vida da população.
Torna-se essencial que cada um de nós adote estratégias e medidas de mitigação das questões de saúde emocional para conseguirmos ter uma vida saudável e com qualidade.
O que é saúde emocional?
Saúde emocional, ou saúde mental, diz respeito ao bem-estar psicológico, social e emocional de uma pessoa, o qual lhe permite pôr em prática as suas capacidades/habilidades, lidar com o stress normal da vida, trabalhar produtivamente e contribuir para a comunidade.
Assim, uma pessoa com boa saúde emocional consegue:
Reconhecer e gerir eficazmente as próprias emoções;
Lidar com o stress e com a adversidade da vida;
Tomar decisões;
Trabalhar de forma produtiva;
Manter bons e saudáveis relacionamentos;
Ter sentido de propósito;
Sentir satisfação na vida.
Ter saúde emocional não é estar sempre feliz. Trata-se de ter capacidade para gerir as adversidades da vida e ter propósitos e satisfação na vida.
Prevalência global de transtornos mentais
Segundos dados do Institute for Health Metrics and Evaluation de 2023, 15% da população mundial sofre de transtornos mentais.
Países Baixos, Portugal e Austrália são os países com maiores taxas de prevalência de transtornos mentais, seguindo-se o Reino Unido, Irão, Malta, Brasil e Irlanda.
Prevalência global de transtornos mentais em 1990 e 2019
1990 Prevalência, em milhões (IC 95%) | 2019 Prevalência, em milhões (IC 95%) | |
Transtornos mentais | ||
Total | 654,8 | 970,1 |
Masculino | 317,8 | 462,2 |
Feminino | 337,0 | 507,9 |
Transtornos de ansiedade | ||
Total | 194,9 | 301,4 |
Masculino | 73,4 | 113,9 |
Feminino | 121,5 | 187,5 |
Transtornos depressivos | ||
Total | 170,8 | 279,6 |
Masculino | 65,6 | 109,2 |
Feminino | 105,2 | 170,4 |
Total | 72,4 | 84,7 |
Masculino | 52,6 | 61,5 |
Feminino | 19,8 | 23,2 |
Outros transtornos mentais | ||
Total | 67,7 | 117,2 |
Masculino | 39,9 | 68,3 |
Feminino | 27,8 | 48,9 |
IC 95% = intervalo de confiança de 95%.
*Tabela adaptada de Global, regional, and national burden of 12 mental disorders in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019, The Lancet Psychiatry, Volume 9, Issue 2, February 2022, Pages 137-150. ISSN 2215-0366, https://doi.org/10.1016/S2215-0366(21)00395-3.
Prevalência em Portugal
Portugal apresenta uma das prevalências anuais de perturbações mentais mais elevadas da União Europeia (22,9%), das quais se destacam:
Perturbações de ansiedade: afetam 16,5% da população;
Perturbações depressivas: afetam 7,9% da população.
O nosso país é, igualmente, um dos países da Europa onde mais se consomem ansiolíticos, sedativos e hipnóticos (alprazolam e lorazepam são as substâncias que se destacam e devemos alertar para o seu maior potencial de induzir dependência e tolerância), consumo esse que tem registado acréscimos anuais.
Causas das doenças emocionais (ansiedade e depressão)
As doenças emocionais têm muitas causas subjacentes e resultam da interação complexa de vários fatores. Podemos referir, então, como causas:
Fatores biológicos — predisposição genética e hereditariedade (histórico familiar de ansiedade e/ou depressão), desequilíbrio neuroquímico (disfunções nos neurotransmissores que regulam o humor e a cognição, como a serotonina, a noradrenalina e o GABA), disfunções hormonais (desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, níveis elevados crónicos de cortisol);
Fatores psicológicos — padrões de pensamento disfuncionais (pensamentos negativos e distorcidos, pensamento repetitivo e obsessivo sobre os problemas, antecipação constante dos piores desfechos), experiências traumáticas precoces (traumas na infância, como abuso, negligência ou perda, os quais afetam o desenvolvimento do sistema nervoso e a capacidade de regulação emocional), baixa autoestima e dificuldade em desenvolver estratégias para lidar com o stress e a adversidade;
Fatores sociais e ambientais — stress crónico e eventos de vida adversos (problemas financeiros, ambiente de trabalho tóxico, discriminação, luto, desemprego, divórcio), isolamento social e falta de apoio (ausência de rede de apoio social), determinantes socioeconómicos (pobreza, instabilidade económica, desigualdade social, insegurança), estigma e acesso a cuidados (estigma relacionado às doenças mentais dificulta a procura de ajuda precoce).
Porque é importante cuidar da saúde emocional?
Quando temos a nossa saúde emocional prejudicada, somos incapazes de lidar com situações desconfortáveis, caindo em gatilhos psicológicos. É mais fácil deixarmo-nos levar pela tristeza e pelas preocupações do dia a dia. Portanto, cuidar da saúde mental é essencial para prevenir transtornos mentais, mas também para termos qualidade de vida.
Pessoas com boa saúde mental:
Recuperam mais rapidamente de adversidades, traumas e perdas;
São mais resilientes;
Gerem as emoções intensas de forma construtiva;
Compreendem os seus próprios valores, necessidades e limites.
A saúde emocional está, também, ligada à saúde física:
O stress crónico e a má saúde emocional prejudicam o sistema imunitário, deixando-nos mais vulneráveis a infeções e outras doenças;
A ansiedade e a depressão estão associadas a um maior risco de ataques cardíacos, hipertensão e AVC;
Pessoas com boa saúde emocional tendem a alimentar-se de forma mais equilibrada e saudável, a dormir melhor e a praticar exercício físico regular.
A saúde mental tem, ainda, impacto na produtividade, desempenho laboral/escolar e nas relações sociais:
A ansiedade e a depressão prejudicam a função cognitiva (concentração, memória e capacidade de tomar decisões);
Pessoas com saúde emocional prejudicada não comunicam tão eficazmente e são incapazes de resolver conflitos;
Problemas emocionais causam desmotivação e falta de energia, prejudicando o desempenho profissional/académico.
Como cuidar da saúde emocional?
Algumas atitudes podem auxiliar ou prejudicar a nossa saúde emocional. É importante evitar aquelas que causam danos à saúde mental, tal como dar prioridade àquelas que favorecem o nosso bem-estar emocional.
O que deve evitar?
Horas extras no trabalho — horários de trabalho alargados, com pouca organização e frequentes, prejudicam a saúde mental. É necessário estabelecer limites para não nos sobrecarregarmos e não aumentarmos o stress e a pressão causados pelo trabalho;
Muito tempo nas redes sociais — o uso excessivo do telemóvel traz impactos negativos para a saúde mental, especialmente quando falamos de redes sociais. Os perfis “perfeitos” que nos são apresentados a todos os segundos “atiram-nos” para uma comparação irrealista, prejudicando a nossa autoestima e podendo gerar depressão;
Isolamento social — a ausência de interações sociais pode causar resistência, pois habituamo-nos a ficar sozinhos. Temos de estar cientes que este isolamento social nos impede de viver bons momentos, junto de pessoas que podem ser um grande suporte;
Dormir pouco/mal — dormir poucas horas por noite ou dormir mal prejudicam seriamente a saúde mental.
O que deve fazer?
Meditação — a prática de meditação constante, com o uso da técnica de mindfulness (atenção plena), pode ajudar o cérebro a interpretar informações com maior leveza, diminuindo o stress e a ansiedade, além de relaxar a mente;
Exercício físico — a prática regular de atividade física reduz o stress e controla ansiedade, além de melhorar o humor;
Alimentação saudável e equilibrada — ter uma alimentação saudável, rica em nutrientes essenciais, como vitaminas e minerais, favorece o bom funcionamento do nosso corpo, inclusive do nosso cérebro. Magnésio e vitaminas do complexo B, por exemplo, reduzem a ansiedade e previnem transtornos mentais;
Rotina — ter uma rotina organizada é fundamental para a nossa saúde mental. O ser humano precisa de estabilidade para sentir-se bem e, nesse sentido, ter uma rotina dá-nos uma sensação de segurança e um sentimento de dever cumprido. É fundamental ter horários, com pausas incluídas;
Lazer — ter momentos de diversão é essencial para descontrair a mente;
Relações saudáveis — é importante manter por perto pessoas que sejam empáticas e compreensíveis, que nos façam sentir amados e confortáveis;
Psicoterapia — o acompanhamento psicológico não deve ser feito somente quando temos problemas emocionais. Antes, este deve ser feito ao longo da nossa vida, pois é uma ferramenta que nos ensina a lidar com os nossos problemas e, assim, ajuda na prevenção de doenças psiquiátricas.
Procurar ajuda não deve ser um motivo para se envergonhar. Se sente que está com muita ansiedade, deprimido, que não está a conseguir lidar com tudo o que está a acontecer à sua volta, marque uma consulta com um profissional de Psicologia.
A sua saúde emocional é importante para garantir qualidade de vida e saúde. Por isso, adote medidas preventivas, seguindo as dicas que lhe demos, e procure um profissional que o ajude a lidar com o stress e ansiedade do dia a dia.
