
Vivemos numa era em que a informação nunca dorme e onde o termo doomscrolling se tornou comum na vida de muitas pessoas.
As notícias chegam-nos ao telemóvel antes mesmo de chegarem à televisão e as redes sociais são uma janela permanente para tudo o que acontece no mundo - o bom, o mau e o terrível.
É neste contexto que surge o fenómeno do doomscrolling, um comportamento cada vez mais comum e que tem impacto direto na nossa saúde mental, produtividade e bem-estar.
Neste artigo, exploramos o que é o doomscrolling, porque é tão viciante, de que forma afeta o cérebro e que estratégias práticas podemos usar para evitar.
Prepare-se: este é um daqueles temas que vai levá-lo a olhar para o telemóvel de forma diferente.
Doomscrolling: o que é e porque acontece?
O doomscrolling não é apenas um “mau hábito”: é um comportamento que tem raízes profundas na forma como o nosso cérebro funciona e, também, no modo como as redes sociais foram programadas.
Comecemos pela base: o nosso cérebro.
O cérebro é programado para procurar ameaças
Do ponto de vista evolutivo, prestar atenção ao perigo aumentava as hipóteses de sobrevivência.
Atualmente, o “perigo” já não é um predador que nos pode apanhar no meio da savana. Mas aparece sob a forma de:
Notícias de violência;
Crises políticas;
Problemas económicos;
Polémicas sociais;
Catástrofes ambientais.
Assim, o cérebro continua a reagir como se precisasse de estar sempre alerta.
As redes sociais são desenhadas para nos prender
Plataformas como Instagram, TikTok, X (o antigo Twitter) e Facebook utilizam os chamados “algoritmos”, que privilegiam conteúdos que geram emoções básicas fortes ─ e as emoções negativas são, infelizmente, das mais poderosas!
Quanto mais tempo passamos a consumir conteúdo, mais essas plataformas ganham. E quanto mais emocional for o conteúdo, mais tempo ficamos ligados.
A ilusão de controlo
Muitas pessoas fazem doomscrolling porque acreditam que, ao estarem informadas, conseguem controlar melhor o que acontece.
No entanto, o efeito é precisamente o contrário: quanto mais informação negativa consumimos, mais impotentes nos sentimos.
O ciclo da ansiedade
O doomscrolling alimenta um ciclo difícil de quebrar:
Surge uma notícia negativa;
A ansiedade aumenta;
Procuramos mais informação para controlar a ansiedade;
Encontramos mais notícias negativas;
A ansiedade aumenta ainda mais.
O ciclo repete-se.
Doomscrolling: tradução e origem
A palavra doomscrolling vem do inglês e resulta da junção de doom (desgraça, tragédia, catástrofe) com scrolling (o ato de deslizar o dedo no ecrã para ver mais conteúdo).
Deste modo, a tradução mais literal seria algo como “rolando desgraças” ou “navegar por notícias negativas sem parar”.
Na prática, doomscrolling é o hábito de:
Consumir notícias negativas de forma compulsiva;
Passar longos períodos a navegar por conteúdos que geram ansiedade;
Procurar, quase sem perceber, mais e mais informação perturbadora;
Sentir dificuldade em parar, mesmo quando já nos sentimos mal.
É um comportamento que se tornou especialmente evidente durante a pandemia de COVID-19, mas que continua muito presente em tempos de crises económicas, conflitos internacionais, desastres naturais ou até de polémicas nas redes sociais.

Como é que o doomscrolling afeta a saúde mental?
O impacto do doomscrolling vai muito além de “ficar maldisposto”. Estudos recentes mostram que este comportamento está associado a vários problemas psicológicos e físicos.
Aumento da ansiedade e do stress
Consumir notícias negativas de forma contínua ativa o sistema de resposta ao stress. Isto leva a:
Tensão muscular;
Irritabilidade;
Sensação de ameaça constante;
Dificuldade em relaxar.
Perturbações do sono
O doomscrolling é especialmente comum à noite, quando, finalmente, temos tempo para “pôr tudo em dia”. Mas o cérebro não foi feito para processar tragédias antes de dormir.
As consequências comuns disso são:
Dificuldade em adormecer;
Sono leve e pouco reparador;
Despertares noturnos;
Pesadelos.
Sensação de impotência e pessimismo
Quando somos expostos continuamente a más notícias, começamos a acreditar que o mundo é mais perigoso do que realmente é.
Esta perceção pode levar a:
Visão pessimista da vida;
Sensação de falta de controlo;
Desmotivação;
Retração social.
Diminuição da produtividade
O doomscrolling consome tempo e energia mental. É comum perdermos minutos – ou horas! - sem perceber, o que afeta:
Concentração;
Capacidade de tomar decisões;
Criatividade;
Desempenho profissional.
Sintomas físicos
O stress prolongado causado pelo doomscrolling pode manifestar-se também no corpo através de:
Dores de cabeça;
Problemas gastrointestinais;
Fadiga;
Palpitações.
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7 Sinais de que pode estar a fazer doomscrolling
Apesar de todos estes efeitos negativos, nem sempre é fácil reconhecer este comportamento. Se não tem a certeza que seja o seu caso, eis alguns sinais de alerta:
Passa mais tempo do que gostaria a ver notícias negativas;
Sente-se ansioso, irritado ou triste depois de usar o telemóvel;
Tem dificuldade em parar de rolar o feed;
Vai “só ver mais uma notícia” e acaba por ficar muito mais tempo;
O seu humor muda depois de consumir conteúdo online;
Sente que precisa de estar sempre atualizado;
O telemóvel é a última coisa que vê antes de dormir e a primeira que espreita ao acordar.

Se se identificou com vários destes pontos, é provável que esteja a cair no ciclo do doomscrolling.
Doomscrolling e FOMO: uma combinação explosiva
O FOMO (Fear of Missing Out, ou "medo de ficar de fora", em português) é outro fenómeno muito presente na era digital.
Quando combinamos FOMO com doomscrolling, o resultado é um comportamento ainda mais viciante.
O medo de perder uma notícia importante leva-nos a:
Verificar o telemóvel constantemente;
Seguir múltiplas fontes de informação;
Consumir conteúdo, mesmo quando nos faz mal.
Ora, esta conjugação de fatores é como tentar apagar um incêndio com gasolina!
Porque é que o doomscrolling aumentou tanto nos últimos anos?
Há vários fatores que explicam o crescimento assustador do doomscrolling nestes anos recentes, entre os quais:
Crises globais sucessivas ─ pandemia, guerras, inflação e alterações climáticas levam a uma sensação de instabilidade constante;
Velocidade da informação ─ as notícias chegam em segundos e, quando algo acontece, há centenas de fontes a competir pela nossa atenção;
Cultura do “breaking news” ─ atualmente, tudo é urgente, tudo é importante e tudo exige a nossa atenção imediata;
Solidão digital ─ muitas pessoas usam o telemóvel para se sentirem acompanhadas. O problema é que acabam por se expor a conteúdos que aumentam a ansiedade.
Como evitar o doomscrolling: 10 estratégias práticas
A boa notícia é que é possível quebrar o vício do doomscrolling, embora pareça impossível quando se está totalmente imerso neste ciclo.
Aqui ficam estratégias eficazes e fáceis de implementar para mudar isso.
1. Defina horários para consumir notícias
Em vez de verificar o telemóvel constantemente, escolha momentos específicos do dia para confirmar as notícias.
Pode fazê-lo, por exemplo, de manhã ou ao final da tarde, mas nunca o faça antes de dormir.
Isto vai ajudar a reduzir a exposição a ecrãs e a manter o controlo.
2. Siga apenas fontes de informação credíveis
Convença-se de que menos é mais e escolha duas ou três fontes confiáveis de informação.
Deste modo, vai evitar feeds caóticos, reduzindo significativamente a quantidade de informação a que é exposto.
3. Use limites de tempo no telemóvel
A maioria dos smartphones permite definir limites de uso para apps. É uma forma bastante simples e eficaz de evitar perder a noção do tempo.
4. Evite o telemóvel na cama
A cama deve ser um espaço de descanso, não de ansiedade. Então, deixe o telemóvel longe do alcance físico.
5. Pratique o “scrolling consciente”
Antes de abrir uma app, pergunte a si próprio:
Porque estou a fazer isto?
O que procuro?
Isto vai fazer-me sentir melhor ou pior?
Este pequeno momento de consciência pode evitar longas sessões de doomscrolling.
6. Substitua o hábito por algo positivo
Quando sentir vontade de pegar no telemóvel, experimente outras opções. Eis algumas sugestões:
Ler um livro;
Ouvir música;
Fazer uma caminhada;
Ligar a um amigo;
Praticar respiração profunda e/ou meditação.
O objetivo é quebrar o automatismo fazendo algo diferente e que mantenha a sua mente ocupada.
7. Desative notificações desnecessárias
As notificações são gatilhos poderosos para o doomscrolling. Desativá-las é uma forma prática de reduzir a tentação de verificar o telemóvel.
8. Faça uma “dieta digital”
Tal como uma dieta alimentar, uma dieta digital implica algumas restrições, designadamente:
Reduzir o consumo de conteúdos tóxicos.
Aumentar o consumo de conteúdos positivos.
Equilibrar o tempo online e offline.
9. Use apps que promovem o bem-estar
Existem apps que ajudam a monitorizar o tempo de ecrã, a promover pausas e a incentivar hábitos saudáveis. Tire partido dos benefícios que oferecem.
10. Procure apoio, se necessário
Se o doomscrolling estiver a afetar significativamente o seu bem-estar e a sua saúde física e mental, pode ser útil procurar apoio de profissionais de terapia.
Este é um passo importante para recuperar o equilíbrio e as rédeas da sua vida.
Doomscrolling vs Bloom Scrolling
Em contraposição ao problema do doomscrolling, há um conceito oposto que tem ganhado destaque nos últimos anos: o bloom scrolling.
Enquanto o primeiro nos puxa para um ciclo de ansiedade e pessimismo, o segundo incentiva-nos a procurar conteúdos que promovem bem-estar, aprendizagem e inspiração.
O que é o bloom scrolling?
O termo deriva de bloom (florescer, crescer) e descreve o hábito de navegar intencionalmente por conteúdos positivos, educativos ou emocionalmente nutritivos.
Em vez de rolar o feed à procura de tragédias, polémicas ou notícias alarmantes, o bloom scrolling incentiva-nos a:
Seguir contas que partilham conhecimento útil;
Consumir conteúdos que promovem calma e equilíbrio;
Procurar histórias inspiradoras;
Aprender algo novo;
Reforçar emoções positivas.
É uma forma consciente de transformar o tempo online numa experiência mais saudável e construtiva.
Aproveite para ler: 20 Atividades lúdicas para trabalhar as emoções com dicas práticas
Principais diferenças entre doomscrolling e bloom scrolling
Aqui está uma comparação clara entre os dois comportamentos:

Num mundo onde a negatividade se espalha rapidamente, o bloom scrolling funciona como um antídoto emocional.
Não se trata de ignorar problemas reais, mas sim de equilibrar a balança.
O bloom scrolling apresenta vários benefícios como contraponto ao doomscrolling, nomeadamente:
Redução dos níveis de stress;
Melhoria do humor;
Aumento da motivação;
Maior sensação de controlo;
Reforço da criatividade;
Aprendizagem contínua.
O bloom scrolling é uma forma de usar a tecnologia a nosso favor, em vez de permitir que ela dite a nossa saúde emocional.
Como transformar doomscrolling em bloom scrolling
A transição de doomscrolling para bloom scrolling não acontece de um dia para o outro, mas pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença.
Assim, siga estes passos:
Deixe de seguir contas que o deixam ansioso e substitua-as por perfis educativos, páginas de ciência e curiosidades, contas de humor saudável, criadores que partilham dicas de bem-estar e projetos inspiradores;
Crie listas ou pastas de conteúdos positivos, guardando vídeos e publicações que o fazem sentir-se bem ─ quando tiver vontade de fazer doomscrolling, abra essa pasta em vez do feed geral;
Use temporizadores ─ se sabe que tende a cair no doomscrolling, defina um limite de tempo para navegar e use esse tempo para procurar conteúdos positivos.
Pratique a gratidão digital ─ sempre que encontrar algo que o faça sorrir, guarde, partilhe ou comente. Este pequeno gesto reforça o hábito de procurar o que é bom.
O equilíbrio é a chave
Não é realista, nem saudável, viver apenas no bloom scrolling. Estar informado é importante e ignorar completamente notícias negativas não é a solução.
O objetivo é encontrar um equilíbrio que o permita manter-se informado, proteger a sua saúde mental e usar o digital de forma consciente.
O doomscrolling não é inevitável
O doomscrolling é um fenómeno moderno, mas que resulta de um comportamento primitivo do ser humano e que está associado ao instinto de sobrevivência.
É o resultado de um cérebro que procura segurança num mundo que nunca cessa de enviar estímulos. Mas, apesar de ser fácil de compreender, não tem de ser inevitável.
Sabendo o que é doomscrolling e reconhecendo os seus efeitos, podemos adotar estratégias práticas para recuperar o controlo e transformar a relação com a tecnologia. O objetivo não é deixar de usar o telemóvel, mas usá-lo de forma consciente, equilibrada e saudável.
