
Textos são ideias, histórias e testemunhos a ser desvendados. Interpretá-los é perceber o que está dito, reconhecer as ideias, conectá-las e entender por que razão uma conclusão faz sentido. A interpretação de texto é, portanto, mais do que ler e narrar o que foi dito, antes é compreender o que o autor nos quis contar.
Apesar de ser associada à disciplina de português, a interpretação de textos encontra-se em todo o percurso escolar, como na compreensão de problemas de matemática e nos enunciados de ciências, por exemplo. Mais, esta é uma competência que nos acompanha ao longo da vida: na leitura de um livro, de uma notícia, ou até mesmo de uma mensagem de texto.
Esta habilidade pode ser trabalhada de forma gradual, lendo com acompanhamento, conversando sobre o que leu e sobre o que aprendeu. Aqui, trazemos-lhe todas as informações de que precisa para ensinar crianças e adolescentes a interpretar um texto do zero.
O que significa interpretar um texto?
A interpretação de texto vai além de identificar as principais informações (quem participa no texto, onde se dá a ação, o que acontece, quando e porquê). Implica que o leitor relacione ideias, deduza o que não foi dito de forma direta e compreenda a intenção de quem escreveu.
É importante que a criança aprenda que interpretar não é adivinhar, mas construir uma resposta apoiada nas palavras, acontecimentos e sinais presentes no texto.
Por exemplo, se numa história a personagem fecha a porta, fala baixo e esconde um presente, é percetível que está a preparar uma surpresa (não precisa de estar explícito no texto). É precisamente este caminho entre o que está escrito e o que se consegue deduzir que devemos treinar em crianças e adolescentes.
Leitura e interpretação de texto: passo a passo
Antes de mais nada, deve assegurar que a criança ou adolescente tenha boas condições de leitura. É normal que tenha mais dificuldade em concentrar-se, principalmente perante um texto mais longo. Assim, dedique um espaço confortável, sem estímulos externos, como televisão ou computador, que melhore a concentração.
1 — A escolha do texto
Deve ajustar o texto, o tempo disponível e o tipo de ajuda perante a idade e o nível de autonomia da criança ou adolescente.
Nos primeiros anos, opte por textos curtos, lengalengas, pequenas histórias, bandas desenhadas e imagens com legendas. É importante que os textos sejam acessíveis e que o leitor faça uma ligação entre o que lê e os seus conhecimentos prévios.
Com crianças mais velhas e com adolescentes, pode introduzir-se gradualmente uma maior variedade de géneros: notícias, entrevistas, textos de opinião, poemas, instruções, infografias ou excertos de livros.
2 — Primeiras informações
Dando o texto à criança, peça-lhe que primeiro observe o título, os subtítulos, as imagens e as palavras destacadas. Estes já dão pistas sobre o que pode vir a tratar o texto.
3 — Desbravar o texto
Peça que a criança leia com atenção, parando sempre que surge uma palavra desconhecida (implica consulta no dicionário) ou uma passagem mais confusa (se a criança não entender, peça-lhe que leia novamente e faça perguntas-chave para ajudá-la a compreender o que está escrito no texto), como “Que acabou de acontecer?” ou “Que palavra dá essa pista?”.
Se a criança começou agora a ler, a leitura em voz alta pode ajudar bastante. O adulto pode ler uma parte e convidar a criança a continuar. Pode interferir para modelar o raciocínio, por exemplo: “Penso que esta personagem está preocupada. Porquê?”
Ao intervir na leitura (mesmo quando é você a ler), a criança percebe que leitores fazem pausas, levantam hipóteses e voltam atrás quando precisam.
4 — Ensinar a procurar pistas no texto
Muitas vezes, as crianças estão mais preocupadas em “adivinhar” a resposta que o professor quer do que em entender o texto. É importante desconstruir essa ideia. As respostas estão todas no texto e é nele que a criança ou adolescente tem de se concentrar.
Uma estratégia útil consiste em separar a resposta em duas partes: o que pensa e a pista que encontrou. Por exemplo: “Penso que a personagem está desiludida, porque guardou o bilhete no bolso e deixou de sorrir.”
5 — Marcações úteis
Peça que a criança faça marcações no texto usando cores diferentes ou pequenos símbolos, destacando, cada um deles, funções distintas, como informação importante, emoções, dúvidas. Este tipo de atividade trabalha a leitura crítica.
6 — Conversar sobre o que se leu
Falar sobre o que se lê é uma das atividades que mais desenvolvem a interpretação de texto. Escolha algumas perguntas que convidem a criança ou o adolescente a pensar sobre o que acabou de ler:
Qual foi a parte mais importante? Porquê?
Que frase o ajuda a chegar a essa conclusão?
O que a personagem sentiu neste momento?
O que poderia acontecer a seguir?
Concorda com a decisão da personagem? Porquê?
Se a criança ou o adolescente não souber responder, o adulto deve voltar ao texto e, juntos, procurar uma pista que leve à resposta.
Começar por perguntas simples e avançar passo a passo
As perguntas de interpretação devem sempre acompanhar a progressão da criança. Se as perguntas forem muito difíceis, a leitura vai acabar por se tornar frustrante. Se forem muito fáceis, deixa de estimular o raciocínio.
Faixa de desenvolvimento | Objetivo principal | Atividades adequadas |
Leitores iniciantes | Perceber personagens, ações e informação direta. | Ordenar imagens, responder oralmente, desenhar uma cena, ligar frase e imagem. |
Crianças em consolidação | Identificar ideia principal, sequência e vocabulário pelo contexto. | Recontar com início-meio-fim, escolher um título diferente, completar uma tabela de personagens e acontecimentos. |
Jovens leitores | Inferir, comparar perspetivas, analisar argumentos e justificar opiniões. | Sublinhar evidências, distinguir facto e opinião, debater um texto ou resumir um parágrafo com palavras próprias. |
O que evitar ao trabalhar a interpretação de texto
Alguns hábitos devem ser evitados, pois tornam o processo mais difícil e podem criar ansiedade na criança ou adolescente. Assim, atente na tabela abaixo:
Evite | Alternativa |
Corrigir imediatamente cada resposta. | Pedir que a criança releia e encontre uma pista antes de ajudar. |
Usar sempre textos longos e difíceis. | Escolher textos desafiantes, mas ajustados ao nível atual de leitura. |
Fazer perguntas apenas de resposta literal. | Combinar perguntas de localização, inferência, opinião e justificação. |
Valorizar apenas a resposta certa. | Valorizar o raciocínio, a tentativa e o uso de evidências. |
Tratar a leitura como obrigação isolada. | Criar momentos regulares de leitura partilhada e conversa. |
Leitura como passatempo
Nem todos os momentos de leitura devem ser uma atividade formal. É importante que as crianças e os adolescentes aprendam a ler por prazer.
Quando uma criança ou adolescente têm curiosidade e liberdade para escolher temas, livros ou revistas, aproximam-se dos textos com mais disponibilidade para questionar e compreender.
É o gosto pela leitura que vai fazer com que as crianças e adolescentes queiram entender o que o autor quer dizer, saber o que vem a seguir, perceber quem é a personagem… A interpretação de texto começa aqui, com a vontade de querer conversar com o texto.
