
A obesidade infantil é um dos grandes desafios de saúde pública deste século, tanto que a OMS já a classifica como uma epidemia global, uma doença crónica e complexa que afeta a saúde de crianças e adolescentes em todo o mundo. Saber as causas, como tratar e prevenir a obesidade infantil é, portanto, fundamental para garantir que o futuro dos nossos jovens seja saudável.
O Dia Mundial da Obesidade celebra-se a 4 de março.
A obesidade na infância é um problema de saúde, o qual traz consequências físicas, psicológicas e sociais que podem ficar para o resto da vida.
Em Portugal, os números de obesidade infantil não são dos mais animadores e refletem a preocupação da OMS. É importante que pais, educadores, cuidadores, profissionais de saúde e a sociedade, como um todo, assumam a sua responsabilidade quanto a esta questão.
Aqui, vamos passar-lhe toda a informação sobre a obesidade na infância e na adolescência, de modo que compreenda a real dimensão do problema e que encontre ferramentas úteis para agir.
O que é a obesidade infantil?
A obesidade infantil é uma condição médica que se caracteriza pela acumulação excessiva de gordura corporal, representando um risco para a saúde. O excesso de gordura não tem implicações apenas no espelho. A verdade é que prejudica seriamente a saúde, podendo causar diabetes tipo 2, apneia do sono, cancro, doenças cardiovasculares, entre outras condições de saúde.
Geralmente, o diagnóstico é feito com base no IMC (Índice de Massa Corporal). Para crianças e adolescentes, o valor do IMC é enquadrado em tabelas de percentis de crescimento da OMS, as quais são específicas para a idade e para o sexo.
Considera-se que uma criança está com:
Excesso de peso — quando o IMC se situa acima do percentil 85 para a idade e sexo;
Obesidade — quando o IMC ultrapassa o percentil 97 (ou 95, dependendo da curva de referência utilizada).
O IMC deve ser usado como uma referência pelo pediatra ou médico de família. A par do seu cálculo, deve medir-se a percentagem de gordura corporal para confirmar o diagnóstico.
Obesidade mórbida infantil
A obesidade mórbida infantil, ou obesidade grave ou de classe II/III, é o último estágio da doença, devendo ser olhada com muito cuidado.
Considera-se obesidade mórbida infantil quando o IMC atinge um valor igual ou superior a 35 kg/m2.
Uma criança diagnosticada com obesidade mórbida corre o risco sério de desenvolver doenças graves precocemente, como a diabetes tipo 2 ou a apneia do sono, por exemplo. Portanto, falamos de um risco para a saúde imediato e severo, o qual carece de uma intervenção multidisciplinar.
Obesidade infantil em Portugal: um retrato da nossa realidade
Os últimos dados (6.ª ronda, 2022) do Sistema de Vigilância Nutricional Infantil do Ministério da Saúde — COSI Portugal (integrado no Childhood Obesity Surveillance Initiative da OMS/Europa), coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), revelam um cenário preocupante: 31,9% das crianças portuguesas entre os 6 e os 8 anos têm excesso de peso e, destas, 13,5% têm obesidade.
Apesar de estes números terem descido na década anterior (entre 2008 e 2019), a prevalência da obesidade infantil voltou a subir e Portugal está novamente em linha com a média europeia.
Este estudo revelou, ainda, assimetrias etárias e regionais, tal como degradação de comportamentos:
A Região Autónoma dos Açores apresenta a prevalência mais elevada de excesso de peso (43%), enquanto o Algarve regista a prevalência mais baixa (27,7%);
A prevalência do excesso de peso aumenta com a idade. Aos 8 anos, 35,3% das crianças têm excesso de peso, enquanto, aos 6 anos, 29,8% das crianças têm peso a mais;
O tempo dedicado a atividades sedentárias (jogar no computador, por exemplo) aumentou entre 2019 e 2022.
Apesar dos números alarmantes deste relatório, há uma boa notícia no ambiente escolar: disponibilizou-se mais fruta e legumes e reduziu-se a oferta de refrigerantes e snacks.
Causas da obesidade infantil
A obesidade infantil tem várias causas associadas (daí ser um problema tão complexo): fatores genéticos, ambientais, comportamentais e sociais.
Sabemos que o desequilíbrio entre a qualidade de calorias ingeridas e calorias gasta é o que causa a acumulação de gordura. Mas o que está por trás deste desequilíbrio?
Fatores | Comportamentos de risco |
Comportamentais e ambientais | Alimentação inadequada — consumo elevado de alimentos processados, fast food, refrigerantes, consumo deficitário de frutas e legumes, consumo de porções desadequadas para o gasto calórico; Sedentarismo — pouca atividade física, tempo exagerado em frente de um ecrã (televisão, tablet, telemóveis); Hábitos de sono — horas de sono insuficientes ou irregulares, causando desregulação das hormonas do apetite (grelina e leptina); Ambiente familiar — hábitos familiares não-saudáveis (escolhas alimentares pobres, estilo de vida em família sedentário). |
Genéticos e biológicos | Predisposição genética — a genética pode ter influência no metabolismo, assim como na tendência para acumular gordura. Entre 40% a 85% da predisposição para a obesidade tem uma base genética; Histórico familiar — mães e pais obesos têm maior probabilidade de ter um(a) filho(a) obeso(a); Fatores pré-natais e perinatais — são fatores de risco de obesidade infantil: excesso de peso da mãe na gravidez, diabetes gestacional, prematuridade ou ausência de aleitamento materno. |
Psicossociais | Ansiedade, depressão e stress — estas doenças podem levar à ingestão compulsiva de alimentos como forma de conforto emocional (fome emocional); Bullying e isolamento social — o sofrimento psicológico causado pelo bullying pode criar um círculo vicioso de isolamento, inatividade e aumento de peso. |
Outras causas | Doenças endócrinas — hipotiroidismo grave ou a síndrome de Cushing, por exemplo, são condições que podem causar aumento de peso, embora sejam causas raras de obesidade; Medicação — alguns medicamentos, como corticoides ou antiepiléticos, podem levar ao aumento de peso. |
Saiba também: Como contar calorias dos alimentos?
Quais as consequências da obesidade infantil?
A obesidade infantil traz consigo uma série de complicações que afetam quase todos os órgãos do corpo, comprometendo a saúde da criança a curto, médio e longo prazos, entre as quais doenças:
Cardiovasculares e endócrinas — hipertensão arterial, colesterol e triglicerídeos elevados, resistência à insulina, pré-diabetes e diabetes tipo 2;
Respiratórias — Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), asma, dificuldades respiratórias;
Gastrointestinais — doença do fígado gordo não-alcoólica (acumulação de gordura no fígado), litíase biliar (pedra na vesícula);
Ortopédicas — tíbia vara (arqueamento das pernas), deslizamento da epífise femoral, dores articulares, fraturas;
Dermatológicas — infeções cutâneas, acantose nigricans (manchas escuras na pele), estrias;
Psicológicas/mentais — ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, imagem corporal distorcida.
Uma criança com obesidade tem maior probabilidade de se tornar um adulto obeso, agravando os riscos de complicações de saúde.
Como prevenir a obesidade infantil: uma missão para todos
A prevenção da obesidade infantil é a melhor forma de combater esta “epidemia”. O segredo é ensinar e adotar hábitos de vida saudáveis, desde o berço. Pais e educadores assumem, portante, a maior responsabilidade, pois são eles que definem o ambiente em que a criança cresce.
Assim, deve incluir-se:
Aleitamento materno — sempre que possível, o leite materno deve ser a alimentação exclusiva nos 6 primeiros meses de vida;
Alimentação saudável, equilibrada e consistente — inclua sopa no início das refeições principais e fruta como sobremesa e nos lanches. Evite oferecer bolachas, refrigerantes, batatas fritas e alimentos processados. Durante as refeições, desligue a televisão e outros ecrãs (privilegie o comer com calma, em família e em convívio);
Água — disponibilize garrafas de água suficientes;
Atividade física diária — pelo menos 60 minutos de atividade física moderada por dia. Incentive brincadeiras ao ar livre, faça caminhadas em família e inscreva a criança num desporto do qual goste;
Sono — garanta que a criança dorme as horas adequadas para a sua idade, com horários regulares.
Lembre-se de que os pais são os exemplos que os filhos seguem. Coma refeições saudáveis, pratique exercício físico e tenha rotinas de sono saudáveis.
Obesidade infantil: tratamento
O tratamento da obesidade infantil exige o comprometimento de toda a família, não apenas da criança. É importante que todos estejam dispostos a uma reeducação gradual e sustentada do estilo de vida.
Após o diagnóstico de obesidade, a criança passa a ser seguida por uma equipa de vários especialistas: nutricionista (define o plano alimentar adaptado às necessidades e gostos da criança e da família), psicólogo (aborda questões de ansiedade, comportamentos alimentares compulsivos e baixa autoestima), profissional de exercício físico (treino com a criança).
Em alguns casos, quando as mudanças no estilo de vida não são suficientes, e apenas em adolescente, considera-se o uso de medicação. A cirurgia bariátrica é uma possibilidade também, mas apenas para casos de obesidade mórbida em adolescentes que já completaram o seu crescimento e que já têm doenças graves associadas.
A obesidade infantil deve ser combatida, mas, sobretudo, prevenida. Adotar hábitos de vida saudáveis é o pilar da prevenção, e estes devem ser adotados por toda a família. Lembre-se sempre de que os heróis (pais e educadores) são os exemplos que as crianças seguem. Faça o que gostaria que as crianças fizessem.
