
Reações exageradas, “explosões” ou cara fechada a qualquer contrariedade — identifica-se com estas atitudes ou conhece alguém assim? Estas reações intensas caracterizam a reatividade emocional. O que é uma pessoa reativa e como podemos viver de forma mais equilibrada quando temos esta característica? É o que veremos aqui.
Neste artigo, vamos entender o conceito de reatividade emocional, explorar quais as características de uma pessoa reativa, assim como estratégias para lidar com estas emoções (que podem, sim, atrapalhar o nosso dia a dia e as nossas relações).
O que é reatividade emocional e o que é uma pessoa reativa?
Reatividade emocional é a tendência para responder intensamente (e de forma imediata) a estímulos internos e/ou externos (que podem ser mínimos).
Assim sendo, uma pessoa reativa é alguém que, perante algumas situações (que, para os outros, podem passar despercebidas ou causar apenas um pequeno desconforto), entra em estado de alerta — o corpo entra em modo de emergência antes de o consciente ter tempo de avaliar a situação.
A pessoa reativa age por impulso, movida por um turbilhão de emoções.
Esse estado de alerta pode levar a:
Explosões de raiva;
Choro incontrolável;
Atitude defensiva;
Reações exageradas.
Estas atitudes podem acontecer em qualquer circunstância, como perante uma crítica construtiva no trabalho, um contratempo em casa ou uma simples pergunta de um amigo.
A reatividade emocional não é um defeito de caráter; é uma resposta automática do cérebro (enraizada em traumas, experiências anteriores ou estado de stress crónico).
Estas reações são uma resposta do nosso cérebro, na tentativa de nos proteger. Ele reage a estímulos atuais como se fossem ameaças antigas, revivendo experiências anteriores, traumas... Portanto, se no passado alguém “aprendeu” que, para se proteger de perigos, tem de estar em hipervigilância, o sistema nervoso entra sempre em alerta, mesmo quando essa ameaça não está presente.
Outros fatores também podem desencadear estas reações, como:
Falta de sono;
Consumo excessivo de produtos com cafeína;
Sobrecarga de trabalho;
Exposição constante a estímulos digitais.
Ora, se alguém já tem a margem de tolerância curta, basta um pequeno gatilho para desencadear uma resposta desproporcional. É certo que o nosso consciente pode saber até que não há motivo para reagir daquela forma, mas o corpo entra em defesa, antes mesmo de conseguirmos racionalizar a situação, reagindo como se estivesse perante uma verdadeira ameaça à sua sobrevivência.
Pessoa reativa: significado e impacto no dia a dia
Para entendermos, de facto, o que é uma pessoa reativa, é importante olharmos para além das suas reações. É fundamental entendermos como ela processa e gere as suas emoções no dia a dia.
Uma pessoa reativa, perante um gatilho emocional, tem uma enorme dificuldade em fazer um compasso de espera entre o estímulo e a resposta. Então, quando a emoção surge, ela aparece com tanta força e rapidez que a pessoa não consegue pensar com clareza e escolher a reação de forma consciente.
Este comportamento tem um impacto muito grande no dia a dia de uma pessoa reativa, em várias áreas da sua vida, chegando mesmo a deixar um rasto de destruição em alguns casos. A reatividade emocional pode:
Impactar negativamente as relações interpessoais — conflitos constantes, mal-entendidos e afastamento podem prejudicar seriamente as relações interpessoais. Respostas impulsivas, carregadas de agressividade, vitimização ou sarcasmo, acabam por desgastar a intimidade e a confiança de familiares e amigos. Quem convive com uma pessoa reativa pode sentir que está sempre a “pisar em ovos”, sempre com medo de dizer algo que desencadeie uma reação negativa, criando uma barreira invisível na comunicação e impedindo uma conexão verdadeira;
Prejudicar na carreira — a reatividade emocional pode levar a uma grande dificuldade em lidar com feedback, trabalhar em equipa, gerir a pressão de prazos e gerir as expectativas. Assim, a imagem profissional de uma pessoa reativa pode ficar seriamente prejudicada, limitando oportunidades de crescimento e de promoção, além de criar um ambiente tóxico, tanto para si como para os seus colegas;
Afetar a saúde mental e física — reatividade emocional constante, a longo prazo, gera stress crónico, ansiedade persistente e uma profunda exaustão, prejudicando seriamente a qualidade de vida. Além disso, o arrependimento constante depois de uma reação exagerada pode levar a sentimentos de culpa, vergonha e uma baixa autoestima.
Quais as características de uma pessoa reativa?
Conhecer os sinais da reatividade emocional é essencial para conseguir mudar e desenvolver uma maior inteligência emocional. É certo que cada pessoa é única e que as suas reações podem variar consoante o contexto, mas existem algumas características comuns que nos podem ajudar a identificar se uma pessoa é reativa.
As características abaixo não devem ser tidas como rótulos definitivos, mas, sim, como indicadores de que o sistema de regulação emocional precisa de cuidado e atenção.
Respostas desproporcionais — a reação emocional tem uma intensidade muito grande, não condizendo com a gravidade da situação real. Um pequeno atraso no trânsito, um imprevisto, um copo de água que se derramou, uma falha na internet, assim como outras pequenas coisas que acontecem no dia a dia, podem desencadear uma resposta emocional intensa, duradoura e, em alguns casos, incontrolável;
Impulsividade — pessoas reativas agem e falam sem pensar nas consequências, a curto e longo prazos, sendo que, mais tarde, muitas vezes se arrependem amargamente das palavras duras que disseram ou das atitudes que tomaram sem ponderar;
Dificuldade em aceitar críticas — mesmo quando é construtivo, o feedback é interpretado como um ataque pessoal direto. Uma pessoa reativa, perante uma crítica, tem uma atitude defensiva, justifica-se de forma excessiva, ou pode contra-atacar e, em alguns casos, passar para a agressão verbal;
Vitimização — tendência a culpar os outros, a falta de sorte ou as circunstâncias externas pelas suas emoções e reações. A pessoa reativa assume muitas vezes o papel de vítima, com um sentimento profundo de que é injustiçada e incompreendida pelas pessoas que a rodeiam. Passa a responsabilidade pelas suas próprias reações a fatores externos, prejudicando a autorreflexão;
Mudanças de humor — pode passar de um estado de alegria e descontração para um estado de irritação profunda ou de tristeza rapidamente. O estado de espírito pode alterar-se sem qualquer motivo aparente, especialmente para quem vê de fora;
Foco em aspetos negativos — a sua atenção está frequentemente centrada em problemas, falhas, dificuldades, no que correu mal, sem valorizar os aspetos positivos, tanto das situações como das pessoas. Este olhar focado constantemente no negativo amplifica a perceção de ameaça e reforça o estado de alerta e a reatividade emocional;
Dificuldade em escutar ativamente — durante uma conversa mais difícil ou conflito, a preocupação está em defender a sua posição, ter argumentos para contra-atacar, ganhar a discussão, mais do que ouvir e entender o ponto de vista e as necessidades da outra pessoa. Assim sendo, uma pessoa reativa “troca” a escuta ativa por uma resposta defensiva;
Tensão física — os ombros estão frequentemente tensos, a mandíbula apresenta-se cerrada, o batimento cardíaco é acelerado, apresenta respiração superficial, assim como tem problemas digestivos constantes.
Como trabalhar a reatividade emocional?
A reatividade emocional traz consequências sérias para a vida pessoal, profissional e social. Contudo, a boa notícia é que esta não é uma sentença, tão-pouco um traço de personalidade impossível de mudar.
Qualquer pessoa consegue aprender novas formas de responder às emoções, investindo em autoconhecimento, tendo paciência e cuidado consigo mesma e praticando de forma consistente.
Se é uma pessoa reativa e quer mudar a forma como reage a várias situações do seu quotidiano, aplique as estratégias que lhe trazemos agora para trabalhar a sua reatividade emocional.
Praticar a autoconsciência
Antes de mais nada, é fundamental que comece a observar as suas próprias reações, consciencializando-se de que tem gatilhos emocionais que o levam a reagir de uma forma intempestiva.
Perceba em que situações tem reações mais exageradas, que palavras despertam em si uma emoção incontrolável, que atitudes o levam a perder a “razão”.
Sempre que perceber essa emoção a surgir, tente fazer uma pausa e preste atenção ao que se passa no seu corpo. Sente que o coração bate mais depressa? A sua respiração fica ofegante? Os seus ombros tencionam-se? O seu estômago fica apertado ou sente o seu rosto quente?
Se conseguir reconhecer os sinais que o seu corpo dá antes da reação, então está a ganhar tempo precioso para conseguir intervir antes que essa emoção controle totalmente as suas ações.
Nomear as emoções
Dar nome às emoções que estamos a sentir ajuda bastante a diminuir a intensidade e o poder que essas emoções têm sobre nós.
Assim, sempre que se sentir a ficar reativo, não se deixe levar pela tempestade, não a reprima, antes identifique e nomeie a emoção de forma clara. Medo de falhar? Vergonha? Raiva? Frustração? Tristeza profunda?
Quando diz a si mesmo, de forma suave e sem autocrítica, a emoção que sente e o motivo, o seu cérebro ativa a parte racional e analítica, abrandando a atividade do sistema de alarme emocional.
Esta pequena atitude de reconhecimento, além de validar a sua experiência interna, também acalma o sistema nervoso, conseguindo ter nas mãos o poder de escolha sobre a sua resposta.
Aproveitar os segundos de pausa
Entre o estímulo e a resposta, tem sempre alguns segundos de pausa. É aí que está o seu poder de escolher a resposta que terá. Quando sentir um impulso, quase incontrolável, de reagir intempestivamente a uma situação ou a um comentário, respire e conte até 10 pausadamente.
Esta pausa irá quebrar o padrão automático de resposta que o seu corpo aprendeu, permitindo que a sua mente consciente avalie a situação de forma clara, ajustando depois as emoções e a sua reação.
Aproveite esses pequenos segundos para focar no momento presente (sinta os pés assentes no chão, olhe em volta e identifique três objetos com cores diferentes, sinta o ar a entrar e a sair dos seus pulmões, perceba o cheiro que tem o ambiente).
Desenvolver a empatia
Muitas vezes, a reatividade emocional surge de interpretações mal feitas, pressupostos incorretos ou até de julgamentos precipitados sobre as intenções que os outros têm. Frequentemente, temos por princípio de que o outro nos quer atacar, quando, na verdade, está apenas a expressar a sua dor ou a sua frustração.
Assim, uma das estratégias para controlar a reatividade emocional é desenvolver a empatia, colocando-se no lugar do outro de forma genuína, com vontade de entender o que sente, quais os seus medos e as suas necessidades.
Promover a regulação do sistema nervoso
Como a reatividade emocional está ligada ao estado de alerta do sistema nervoso, é essencial promover o relaxamento e a regulação física.
Pratique meditação, ioga, faça exercícios de respiração profunda e pratique uma atividade física consistente.
Além disso, deve manter um sono de qualidade (e em quantidade suficiente), ter uma alimentação equilibrada e saudável, assim como reservar tempo para atividades de lazer.
Procurar apoio especializado
Sente que a reatividade emocional lhe causa sofrimento e que está a prejudicar as suas relações interpessoais? Sente que está a perder o controlo no seu local de trabalho ou que está a comprometer o seu bem-estar pessoal? Procure ajuda!
Um psicólogo vai ajudá-lo a entender as causas que estão por trás das suas reações, sem julgamentos, assim como a implementar estratégias que o vão “pôr no controlo” da sua vida novamente.
Este é um processo que pode ser longo (até porque experiências passadas e traumas não se resolvem da noite para o dia), mas é necessário para que consiga recuperar a qualidade das suas relações pessoais e profissionais.
Lembre-se de que pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, mas de reconhecer as suas dificuldades e ter força para “remar contra a maré”. Saiba que só os fortes lutam para evoluir e transformar-se!
