
Treinar em jejum tornou‑se uma tendência nos últimos anos, especialmente entre quem corre de manhã, pratica jejum intermitente ou simplesmente prefere treinar sem sentir o estômago “pesado”.
Mas, apesar da popularidade, continuam a existir muitas dúvidas. Afinal, treinar em jejum faz mal? Treinar em jejum emagrece? O cardio em jejum é mais eficaz? E a musculação?
Estas são algumas das perguntas a que vamos responder neste artigo, desmontando mitos e explicando o que realmente acontece no corpo quando decidimos fazer exercício de estômago vazio.
O que significa treinar em jejum?
Antes de mais, é preciso perceber o que significa treinar em jejum. Estamos a falar de ficar sem comer durante quanto tempo?
Ora, treinar em jejum é realizar exercício físico após um período prolongado sem comer, normalmente entre 8 a 12 horas, como acontece depois de uma noite de sono.
Na prática, é o típico cenário em que se janta pelas 20h e se vai dormir, para depois se acordar pelas 7 da manhã e se ir treinar sem tomar o pequeno‑almoço.
Ou seja, o corpo fica sem receber energia durante várias horas e as reservas de glicogénio (a forma como armazenamos os hidratos de carbono) estão mais baixas.
É aqui que começa a grande questão: o corpo usa mais gordura quando se treina em abstinência alimentar? Sim, é verdade. Porém, isso não significa automaticamente emagrecer mais.
Mas já lá vamos…
O que acontece no corpo quando se faz exercício em jejum?
Durante o exercício, o corpo pode usar:
Glicogénio (hidratos de carbono armazenados);
Ácidos gordos (gordura);
Aminoácidos (proteína muscular, em último recurso).
Quando se está em jejum, as reservas de glicogénio estão mais baixas. Por isso, o corpo recorre mais à gordura como fonte de energia, especialmente em atividades de baixa intensidade.
É por isso que o cardio em jejum ganhou fama: parece lógico que se o corpo usa mais gordura, se vai perder mais gordura. Mas a ciência mostra que não é tão simples assim.
Aproveite para ler: Deve fazer cardio antes ou depois do treino?
Treinar em jejum emagrece? A verdade científica
A resposta curta é: não necessariamente.
A resposta completa: ✔️ sim, treinar em jejum aumenta a oxidação de gordura durante o exercício. Ou seja, naquele momento, o corpo usa mais gordura como combustível.
❌ Mas isso não significa maior perda de gordura corporal ao longo do tempo.
Há estudos que mostram que o corpo compensa essa perda de gordura ao longo do dia e que o gasto calórico total é semelhante. O emagrecimento depende sobretudo do balanço energético diário.
Treinar alimentado pode permitir treinos mais intensos e, logo, uma maior perda de calorias.
Treinar em jejum não é uma estratégia milagrosa de emagrecimento. Pode ajudar algumas pessoas, mas não permite necessariamente resultados superiores a treinar alimentado.
Treinar em jejum faz mal? Depende…
A pergunta “treinar em jejum faz mal?” também não tem uma resposta universal, dependendo de vários fatores como:
Qual é o objetivo do treino;
Tipo de treino;
Intensidade;
Tolerância individual;
Saúde metabólica;
Rotina alimentar;
Qualidade do sono;
Nível de treino.

➤ 4 Benefícios de treinar em jejum
Treinar em jejum pode trazer vantagens interessantes para algumas pessoas, sobretudo quando o objetivo é simplificar a rotina ou realizar treinos de baixa a moderada intensidade.
Estes benefícios não são universais, mas podem fazer diferença dependendo do estilo de vida, da tolerância ao jejum e do tipo de exercício que se pratica.
Antes de aprofundarmos alguns dos benefícios de fazer exercício em jejum, vale a pena lembrar que o mais importante é perceber como o seu corpo reage e ajustar a estratégia de forma consciente.
1. Conveniência e simplicidade
Para muitas pessoas, treinar em jejum é simplesmente mais prático, pois:
Não precisam de acordar mais cedo para comer;
Evitam desconfortos gastrointestinais;
Sentem mais foco e energia mental;
Aumentam a consistência do treino.
📌 A consistência é mais importante do que qualquer estratégia nutricional.
2. Maior utilização de gordura como energia
O corpo usa mais gordura quando se treina em jejum, especialmente em:
Caminhadas;
Corridas leves;
Bicicleta / Cycling;
Cardio moderado;
Ioga;
Pilates.
Isto pode ser útil para quem procura melhorar a eficiência metabólica ou variar estímulos.
3. Melhoria da sensibilidade à insulina
Alguns estudos mostram que treinar em jejum pode:
Aumentar a sensibilidade à insulina;
Melhorar a resposta metabólica;
Ajudar no controlo glicémico.
Mas isto não significa que treinar em jejum seja indicado para diabéticos. Pelo contrário, pode ser perigoso sem acompanhamento.
4. Aumento de catecolaminas e do foco
As catecolaminas são substâncias químicas produzidas pelo corpo que funcionam como hormonas e neurotransmissores, essenciais para a resposta rápida ao esforço, ao stress e a situações de alerta.
As três principais catecolaminas são adrenalina, noradrenalina e dopamina, todas derivadas do aminoácido tirosina.
Em conjunto, estas substâncias mobilizam energia rapidamente, aumentam o foco, preparam o corpo para o esforço físico e ajudam a lidar com situações de stress.
Durante o jejum, há um aumento natural da libertação de catecolaminas, especialmente de adrenalina e noradrenalina, e isso:
Melhora o estado de alerta;
Aumenta a mobilização de gordura;
Facilita a utilização de energia armazenada.
É por isso que muitas pessoas relatam sentir mais “energia mental” ou foco ao treinar em jejum: o corpo está literalmente a ativar o seu sistema de resposta rápida.
➤ 3 Desvantagens e riscos de treinar em jejum
Apesar de poder trazer benefícios para algumas pessoas, esta estratégia não é isenta de limitações.
Quando o corpo está há muitas horas sem receber energia, certos tipos de exercícios tornam‑se mais exigentes e podem até gerar efeitos indesejados.
Por isso, antes de integrar o jejum na sua rotina de treino, é importante conhecer os riscos associados e perceber em que situações esta abordagem pode não ser a mais adequada.
1. Queda de performance e da massa muscular
Treinos intensos dependem de glicogénio. Sem ele, o desempenho baixa e pode haver perda de massa muscular. Isto passa-se em exercícios como:
HIIT;
Sprints;
Musculação pesada;
Treinos longos;
Treinos com grande volume.
Se o treino for intenso e não houver glicogénio suficiente, o corpo pode recorrer a aminoácidos musculares para produzir energia. Não é dramático, mas não é ideal para quem quer hipertrofia muscular.
Se o objetivo é ganhar massa muscular, treinar em jejum não é a melhor estratégia.
2. Maior risco de fadiga e tonturas
Sem energia disponível, é comum sentir-se fraqueza, tonturas, falta de força, quebras de energia e irritabilidade.
Isto é especialmente comum em iniciantes ou em pessoas com baixa tolerância ao jejum.
3. Aumento do cortisol
O jejum prolongado pode aumentar o cortisol, a hormona do stress.
Em excesso, o cortisol:
Prejudica o ganho muscular;
Aumenta a retenção de gordura abdominal;
Afeta o sono;
Aumenta a inflamação.
Cardio em jejum: vale a pena?
Para cardio leve ou moderado, sim, pode ser uma boa estratégia.
✔️ Caminhada
✔️ Corrida leve
✔️ Bicicleta
✔️ Elíptica
✔️ Dança leve
Fazer exercício em jejum neste tipo de atividades pode permitir uma maior oxidação de gordura e ajudar quem está numa fase em que, mesmo mantendo dieta, treino e hábitos saudáveis, deixa de perder peso.
Não é uma solução milagrosa para estes casos, mas pode ser uma ferramenta útil quando usada com critério.
Contudo, não é superior ao cardio alimentado.

Musculação em jejum: faz sentido?
A maioria dos especialistas concorda que não é ideal para hipertrofia. Isto porque promove menor performance e menor força, menor volume de treino e maior fadiga e risco de catabolismo.
O catabolismo acontece quando o organismo “desmonta” hidratos de carbono, gorduras e proteínas para obter energia essencial para funções vitais como a contração muscular, a respiração e a circulação sanguínea.
Quando se vai treinar em jejum, o corpo pode começar a quebrar massa muscular para obter energia e esse é um problema para quem procura hipertrofia.
Mas é possível treinar musculação em jejum sem perder resultados, desde que a pessoa saiba o que está a fazer ou tenha o acompanhamento de um personal trainer experiente.
Também é importante que a refeição da noite anterior tenha sido rica em hidratos de carbono e que o treino seja curto e moderado. Além disso, a refeição pós‑treino deve ser completa.
👉 Quem NÃO deve treinar em jejum
Diabéticos;
Pessoas com hipoglicemia;
Grávidas;
Pessoas com histórico de distúrbios alimentares;
Quem sente tonturas frequentes;
Atletas de alta intensidade;
Quem quer ganhar massa muscular.
Pessoas que dormem mal ou têm horários irregulares.
👉 Quem pode beneficiar do treino em jejum
Pessoas que treinam cedo e não gostam de comer antes;
Quem faz cardio leve ou moderado;
Quem procura melhorar a sensibilidade à insulina;
Pessoas que, mesmo treinando e fazendo dieta, não conseguem emagrecer mais;
Quem tem boa tolerância ao jejum;
Pessoas que valorizam a simplicidade da rotina.
Como treinar em jejum de forma segura
Portanto, está claro que treinar em jejum pode ser uma estratégia válida para algumas pessoas, mas só funciona bem quando é feita com cuidado e atenção aos sinais do corpo.
Antes de pensar em integrar esta prática na sua rotina, é essencial perceber como minimizar riscos, evitar quebras de energia e garantir que o treino continua eficaz e confortável.
Siga estas orientações para fazê-lo de forma consciente e equilibrada:

Comece devagar e experimente só caminhar, correr a um ritmo baixo, fazer meia hora de cardio ou ioga;
Mantenha a intensidade baixa a moderada e evite exercícios como HIIT, sprints e musculação pesada;
Hidrate‑se bem e beba água quanto baste – e pode usar eletrólitos sem calorias;
Observe os sinais do corpo e interrompa o treino se sentir tonturas, fraqueza, náuseas ou a visão turva;
Faça uma boa refeição pós‑treino, incluindo alimentos como hidratos de carbono, proteínas, frutas, iogurtes, ovos, aveia, pão integral e frutos secos.
Não use o jejum como desculpa para comer mal depois do treino. Evite comer em excesso e recompensar-se com açúcar ou com junk food.
Afinal, treinar em jejum faz mal ou não?
Não, desde que seja feito com critério. Pode ser útil em algumas situações e desvantajoso noutras, não sendo indicado para todas as pessoas.
Treinar em jejum não é perigoso para a maioria das pessoas saudáveis, mas também não é uma estratégia milagrosa.
A melhor abordagem é sempre aquela que respeita o seu corpo, se adapta à sua rotina e lhe permite treinar com consistência, ajudando a atingir objetivos sem comprometer a sua saúde.
Se continua com dúvidas sobre se deve ou não treinar em jejum, fale com um nutricionista ou com um personal trainer, especialmente se o seu objetivo for emagrecer ou ganhar massa muscular.
