Treinar em jejum faz mal? Desvendamos o mito

Treinar em jejum faz mal? Desvendamos o mito

Susana Valente
Personal Training |  23 julho 2026 |  
12 min. de leitura
Mulher e homem na passadeira, no ginásio, de costas e a falarem sobre se treinar em jejum faz mal.

Treinar em jejum tornou‑se uma tendência nos últimos anos, especialmente entre quem corre de manhã, pratica jejum intermitente ou simplesmente prefere treinar sem sentir o estômago “pesado”.

Mas, apesar da popularidade, continuam a existir muitas dúvidas. Afinal, treinar em jejum faz mal? Treinar em jejum emagrece? O cardio em jejum é mais eficaz? E a musculação?

Estas são algumas das perguntas a que vamos responder neste artigo, desmontando mitos e explicando o que realmente acontece no corpo quando decidimos fazer exercício de estômago vazio.

O que significa treinar em jejum?

Antes de mais, é preciso perceber o que significa treinar em jejum. Estamos a falar de ficar sem comer durante quanto tempo?

Ora, treinar em jejum é realizar exercício físico após um período prolongado sem comer, normalmente entre 8 a 12 horas, como acontece depois de uma noite de sono.

Na prática, é o típico cenário em que se janta pelas 20h e se vai dormir, para depois se acordar pelas 7 da manhã e se ir treinar sem tomar o pequeno‑almoço.

Ou seja, o corpo fica sem receber energia durante várias horas e as reservas de glicogénio (a forma como armazenamos os hidratos de carbono) estão mais baixas.

É aqui que começa a grande questão: o corpo usa mais gordura quando se treina em abstinência alimentar? Sim, é verdade. Porém, isso não significa automaticamente emagrecer mais.

Mas já lá vamos…

O que acontece no corpo quando se faz exercício em jejum?

Durante o exercício, o corpo pode usar:

  • Glicogénio (hidratos de carbono armazenados);

  • Ácidos gordos (gordura);

  • Aminoácidos (proteína muscular, em último recurso).

Quando se está em jejum, as reservas de glicogénio estão mais baixas. Por isso, o corpo recorre mais à gordura como fonte de energia, especialmente em atividades de baixa intensidade.

É por isso que o cardio em jejum ganhou fama: parece lógico que se o corpo usa mais gordura, se vai perder mais gordura. Mas a ciência mostra que não é tão simples assim.

Treinar em jejum emagrece? A verdade científica

A resposta curta é: não necessariamente.

A resposta completa: ✔️ sim, treinar em jejum aumenta a oxidação de gordura durante o exercício. Ou seja, naquele momento, o corpo usa mais gordura como combustível.

❌ Mas isso não significa maior perda de gordura corporal ao longo do tempo.

Há estudos que mostram que o corpo compensa essa perda de gordura ao longo do dia e que o gasto calórico total é semelhante. O emagrecimento depende sobretudo do balanço energético diário.

Treinar alimentado pode permitir treinos mais intensos e, logo, uma maior perda de calorias.

Treinar em jejum não é uma estratégia milagrosa de emagrecimento. Pode ajudar algumas pessoas, mas não permite necessariamente resultados superiores a treinar alimentado.

Treinar em jejum faz mal? Depende…

A pergunta “treinar em jejum faz mal?” também não tem uma resposta universal, dependendo de vários fatores como:

  • Qual é o objetivo do treino;

  • Tipo de treino;

  • Intensidade;

  • Tolerância individual;

  • Saúde metabólica;

  • Rotina alimentar;

  • Qualidade do sono;

  • Nível de treino.

Infografia com benefícios e desvantagens de treinar em jejum.

➤ 4 Benefícios de treinar em jejum

Treinar em jejum pode trazer vantagens interessantes para algumas pessoas, sobretudo quando o objetivo é simplificar a rotina ou realizar treinos de baixa a moderada intensidade.

Estes benefícios não são universais, mas podem fazer diferença dependendo do estilo de vida, da tolerância ao jejum e do tipo de exercício que se pratica.

Antes de aprofundarmos alguns dos benefícios de fazer exercício em jejum, vale a pena lembrar que o mais importante é perceber como o seu corpo reage e ajustar a estratégia de forma consciente.

1. Conveniência e simplicidade

Para muitas pessoas, treinar em jejum é simplesmente mais prático, pois:

  • Não precisam de acordar mais cedo para comer;

  • Evitam desconfortos gastrointestinais;

  • Sentem mais foco e energia mental;

  • Aumentam a consistência do treino.

📌 A consistência é mais importante do que qualquer estratégia nutricional.

2. Maior utilização de gordura como energia

O corpo usa mais gordura quando se treina em jejum, especialmente em:

  • Caminhadas;

  • Corridas leves;

  • Bicicleta / Cycling;

  • Cardio moderado;

  • Ioga;

  • Pilates.

Isto pode ser útil para quem procura melhorar a eficiência metabólica ou variar estímulos.

3. Melhoria da sensibilidade à insulina

Alguns estudos mostram que treinar em jejum pode:

  • Aumentar a sensibilidade à insulina;

  • Melhorar a resposta metabólica;

  • Ajudar no controlo glicémico.

Mas isto não significa que treinar em jejum seja indicado para diabéticos. Pelo contrário, pode ser perigoso sem acompanhamento.

4. Aumento de catecolaminas e do foco

As catecolaminas são substâncias químicas produzidas pelo corpo que funcionam como hormonas e neurotransmissores, essenciais para a resposta rápida ao esforço, ao stress e a situações de alerta.

As três principais catecolaminas são adrenalina, noradrenalina e dopamina, todas derivadas do aminoácido tirosina.

Em conjunto, estas substâncias mobilizam energia rapidamente, aumentam o foco, preparam o corpo para o esforço físico e ajudam a lidar com situações de stress.

Durante o jejum, há um aumento natural da libertação de catecolaminas, especialmente de adrenalina e noradrenalina, e isso:

  • Melhora o estado de alerta;

  • Aumenta a mobilização de gordura;

  • Facilita a utilização de energia armazenada.

É por isso que muitas pessoas relatam sentir mais “energia mental” ou foco ao treinar em jejum: o corpo está literalmente a ativar o seu sistema de resposta rápida.

➤ 3 Desvantagens e riscos de treinar em jejum

Apesar de poder trazer benefícios para algumas pessoas, esta estratégia não é isenta de limitações.

Quando o corpo está há muitas horas sem receber energia, certos tipos de exercícios tornam‑se mais exigentes e podem até gerar efeitos indesejados.

Por isso, antes de integrar o jejum na sua rotina de treino, é importante conhecer os riscos associados e perceber em que situações esta abordagem pode não ser a mais adequada.         

1. Queda de performance e da massa muscular

Treinos intensos dependem de glicogénio. Sem ele, o desempenho baixa e pode haver perda de massa muscular. Isto passa-se em exercícios como:

  • HIIT;

  • Sprints;

  • Musculação pesada;

  • Treinos longos;

  • Treinos com grande volume.

Se o treino for intenso e não houver glicogénio suficiente, o corpo pode recorrer a aminoácidos musculares para produzir energia. Não é dramático, mas não é ideal para quem quer hipertrofia muscular.

Se o objetivo é ganhar massa muscular, treinar em jejum não é a melhor estratégia.

2. Maior risco de fadiga e tonturas

Sem energia disponível, é comum sentir-se fraqueza, tonturas, falta de força, quebras de energia e irritabilidade.

Isto é especialmente comum em iniciantes ou em pessoas com baixa tolerância ao jejum.

3. Aumento do cortisol

O jejum prolongado pode aumentar o cortisol, a hormona do stress.

Em excesso, o cortisol:

  • Prejudica o ganho muscular;

  • Aumenta a retenção de gordura abdominal;

  • Afeta o sono;

  • Aumenta a inflamação.

Cardio em jejum: vale a pena?

Para cardio leve ou moderado, sim, pode ser uma boa estratégia.

✔️ Caminhada

✔️ Corrida leve

✔️ Bicicleta

✔️ Elíptica

✔️ Dança leve

Fazer exercício em jejum neste tipo de atividades pode permitir uma maior oxidação de gordura e ajudar quem está numa fase em que, mesmo mantendo dieta, treino e hábitos saudáveis, deixa de perder peso.

Não é uma solução milagrosa para estes casos, mas pode ser uma ferramenta útil quando usada com critério.

Contudo, não é superior ao cardio alimentado.

Homem de manga cava no ginásio a levantar pesos e a fazer exercício em jejum.

Musculação em jejum: faz sentido?

A maioria dos especialistas concorda que não é ideal para hipertrofia. Isto porque promove menor performance e menor força, menor volume de treino e maior fadiga e risco de catabolismo.

O catabolismo acontece quando o organismo “desmonta” hidratos de carbono, gorduras e proteínas para obter energia essencial para funções vitais como a contração muscular, a respiração e a circulação sanguínea.

Quando se vai treinar em jejum, o corpo pode começar a quebrar massa muscular para obter energia e esse é um problema para quem procura hipertrofia.

Mas é possível treinar musculação em jejum sem perder resultados, desde que a pessoa saiba o que está a fazer ou tenha o acompanhamento de um personal trainer experiente.

Também é importante que a refeição da noite anterior tenha sido rica em hidratos de carbono e que o treino seja curto e moderado. Além disso, a refeição pós‑treino deve ser completa.

👉  Quem NÃO deve treinar em jejum

  • Diabéticos;

  • Pessoas com hipoglicemia;

  • Grávidas;

  • Pessoas com histórico de distúrbios alimentares;

  • Quem sente tonturas frequentes;

  • Atletas de alta intensidade;

  • Quem quer ganhar massa muscular.

  • Pessoas que dormem mal ou têm horários irregulares.

👉 Quem pode beneficiar do treino em jejum

  • Pessoas que treinam cedo e não gostam de comer antes;

  • Quem faz cardio leve ou moderado;

  • Quem procura melhorar a sensibilidade à insulina;

  • Pessoas que, mesmo treinando e fazendo dieta, não conseguem emagrecer mais;

  • Quem tem boa tolerância ao jejum;

  • Pessoas que valorizam a simplicidade da rotina.

Como treinar em jejum de forma segura

Portanto, está claro que treinar em jejum pode ser uma estratégia válida para algumas pessoas, mas só funciona bem quando é feita com cuidado e atenção aos sinais do corpo.

Antes de pensar em integrar esta prática na sua rotina, é essencial perceber como minimizar riscos, evitar quebras de energia e garantir que o treino continua eficaz e confortável.

Siga estas orientações para fazê-lo de forma consciente e equilibrada:

Infográfico com cinco passos sobre como começar a treinar em jejum de forma segura.

  1. Comece devagar e experimente só caminhar, correr a um ritmo baixo, fazer meia hora de cardio ou ioga;

  2. Mantenha a intensidade baixa a moderada e evite exercícios como HIIT, sprints e musculação pesada;

  3. Hidrate‑se bem e beba água quanto baste – e pode usar eletrólitos sem calorias;

  4. Observe os sinais do corpo e interrompa o treino se sentir tonturas, fraqueza, náuseas ou a visão turva;

  5. Faça uma boa refeição pós‑treino, incluindo alimentos como hidratos de carbono, proteínas, frutas, iogurtes, ovos, aveia, pão integral e frutos secos.

Não use o jejum como desculpa para comer mal depois do treino. Evite comer em excesso e recompensar-se com açúcar ou com junk food.

Afinal, treinar em jejum faz mal ou não?

Não, desde que seja feito com critério. Pode ser útil em algumas situações e desvantajoso noutras, não sendo indicado para todas as pessoas.

Treinar em jejum não é perigoso para a maioria das pessoas saudáveis, mas também não é uma estratégia milagrosa.

A melhor abordagem é sempre aquela que respeita o seu corpo, se adapta à sua rotina e lhe permite treinar com consistência, ajudando a atingir objetivos sem comprometer a sua saúde.

Se continua com dúvidas sobre se deve ou não treinar em jejum, fale com um nutricionista ou com um personal trainer, especialmente se o seu objetivo for emagrecer ou ganhar massa muscular.

Encontrar Personal Trainer

Deixe o seu comentário

Escrevo conteúdos para a web há mais de 20 anos como jornalista e copywriter. Adoro explorar montes e vales por esse país fora. Detesto fazer mudanças e adoro correr à beira-mar. Tenho veia de poeta, sou mãe e uma verdadeira mulher dos sete ofícios!

Mais autores do Blog

Nair dos Santos

Nair dos Santos

Technical SEO e Copywriter. Apaixonada por leitura e escrita, raramente me separo de um bom livro. Sensível ao modo como a Internet pode simplificar o quotidiano, escrevo no Toma Conta para ajudar os leitores a encontrar informação rigorosa e atualizada sobre serviços e tarefas de apoio ao domicílio.

Ver artigos
Sara Paiva

Sara Paiva

Socióloga de formação, Copywriter de paixão. Sou uma apaixonada por literatura (e pelas artes em geral), o que me levou a seguir uma carreira na área da escrita. Desenvolvo conteúdos para o Toma Conta com o objetivo de ajudar os utilizadores a obterem a melhor informação possível.

Ver artigos